Santiago de Murcia: O Mestre do Violão Barroco e a Origem do Ritmo Latino
O Navegador das Cordas: Santiago de Murcia e a Alquimia dos Dois Mundos
No início do século XVIII, a Espanha era um caldeirão de mudanças. A dinastia dos Habsburgo dera lugar aos Bourbon, trazendo influências francesas sofisticadas para uma Madrid que ainda respirava o misticismo arcaico. Santiago de Murcia (1673–1739) nasceu no epicentro dessa transformação. Ele não era apenas um músico; ele era um sintetizador cultural.
1. O Berço de Ouro: A Linhagem dos Violeiros
Diferente de muitos músicos que precisaram lutar para serem notados, Murcia nasceu na "realeza" técnica. Sua família era uma dinastia de construtores de instrumentos (violeros) e músicos ligados à Capela Real.
- O Chamado do Destino: Murcia cresceu cercado pelo cheiro de madeira cortada e pelo som das guitarras barrocas de cinco ordens mais finas do mundo. Sua nomeação como mestre de guitarra da Rainha Maria Luísa Gabriela de Saboia foi o ápice de sua carreira na corte.
- A Missão: Ele deveria ser o guardião da elegância. No entanto, Murcia possuía uma curiosidade "perigosa". Ele olhava para as partituras francesas de Robert de Visée com admiração, mas seus ouvidos estavam atentos ao que acontecia nas ruas de Madrid e nos portos de Sevilha.
2. A Travessia das Sombras: O Músico Além da Corte
A história de Murcia toma um rumo cinematográfico quando ele desaparece dos registros oficiais da corte espanhola por volta de 1706. É aqui que o "Herói" entra em sua fase de provação.
Muitos historiadores sugerem que ele seguiu seus patronos, como Jacome Francisco de Andriani, ou que sua música simplesmente ganhou vida própria e atravessou o Atlântico. O que sabemos é que sua obra foi preservada de forma milagrosa no México (Nova Espanha).
- A Caverna Profunda: O México do século XVIII era um território de hibridismo absoluto. Ritmos espanhóis se chocavam com as percussões africanas dos escravizados e as melodias melancólicas dos indígenas. Murcia, em seus manuscritos, tornou-se o primeiro grande cronista dessa fusão.
3. Os Manuscritos Sagrados: O Resumo e o Códice
A imortalidade de Murcia reside em três coleções monumentais que são, hoje, os "Manuscritos do Mar Morto" do violão:
- Resumen de acompañar la parte con la guitarra (1714): Um tratado técnico de como realizar o baixo contínuo (acompanhamento). Aqui ele mostra sua face acadêmica e rigorosa.
- Passacalles y Obras (1732): Uma coleção de variações sobre temas populares (Passacalles) e transcrições de suítes francesas. É a prova de seu virtuosismo polifônico.
- Códice Saldívar No. 4: Descoberto no México apenas no século XX, este é o "elixir" de Murcia. Nele, encontramos os Sones de la Tierra: Cumbées, Jotas, Fandangos e Zambas.
A Revolução Rítmica: Murcia foi o primeiro a colocar no papel a Síncopa Africana e o Contratempo Latino. Ele transcreveu ritmos que eram considerados "lascivos" pela Igreja, como o Cumbée, provando que a guitarra barroca poderia ser tão percussiva quanto um tambor.
4. O Estilo Murcia: Polifonia com "Suingue"
Estudar Santiago de Murcia exige do violonista moderno uma habilidade que nem sempre é ensinada nos conservatórios: o Groove.
- A Fusão Battuto-Pizzicato: Murcia levou a técnica de Sanz ao extremo. Em uma mesma peça, ele exige que você toque um contraponto delicado (estilo francês) e, de repente, exploda em um rasqueado frenético (estilo espanhol/mexicano).
- O Uso do Campanella (Lição 9): Murcia era mestre em usar cordas soltas para criar ressonâncias de harpa, fazendo as notas se sobreporem. Isso dava à sua música uma sonoridade "psicodélica" e rica, que preenchia as salas dos palácios e as praças das colônias.
5. A Ressurreição: Do Esquecimento ao Estrelato
Por quase 200 anos, Murcia foi apenas um nome em rodapés de livros de história. Sua música era considerada "ultrapassada" pela clareza do Classicismo de Sor e Giulani.
Sua "ressurreição" no século XX, liderada por pesquisadores como Michael Lorimer e Monica Hall, mudou a nossa percepção da história do violão. Descobriu-se que a música de Murcia era a "ponte perdida". Sem ele, não entenderíamos como a Chacona barroca se transformou nos ritmos folclóricos do México e da Argentina. Ele é o ancestral direto de toda a música latino-americana para violão.
6. Sabedoria Aplicada: Por que Murcia é Vital para Você?
Praticar as obras de Santiago de Murcia é um exercício de Libertação Rítmica.
- Independência de Camadas: Murcia ensina você a manter um ritmo de dança no polegar enquanto os dedos agudos fazem ornamentos complexos (Lição 16).
- O Senso de Improviso: Suas variações sugerem que o músico não deve apenas ler a nota, mas "sentir o baile". Ele convida o intérprete a adicionar ornamentos e variações rítmicas próprias.
- A Conexão com as Raízes: Ao tocar Murcia, você percebe que a música erudita e a música popular nunca estiveram separadas; elas são dois lados da mesma moeda.
Resumo da Saga de Murcia
Santiago de Murcia pegou a sofisticação da corte francesa, a paixão da tradição espanhola e o ritmo indomável das Américas e os trancou em seus manuscritos. Ele foi o herói que garantiu que a alma rítmica da guitarra sobrevivesse ao tempo, atravessando oceanos para nos lembrar que o violão é o instrumento da mestiçagem.
Como explorador das cordas, Murcia nos ensina que a técnica serve para dar voz ao povo. Quando você toca um Fandango de Murcia, você está unindo Madrid à Cidade do México em um único compasso de 3/4.
O Desafio de Santiago de Murcia
Para sentir a "ponte" entre os mundos, faça este experimento:
- Ouça a peça "Cumbées" do Códice Saldívar No. 4 (recomendo a versão de Rolf Lislevand ou Enrike Solinís).
- Tente identificar as batidas percussivas no corpo do violão que muitos intérpretes adicionam.
- Perceba como o ritmo é quase "afro-brasileiro" ou "caribenho", apesar de ter sido escrito há 300 anos.



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